- Ortónimo: julho 2014

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Minha Querida A

Começo esta carta por te pedir as mais sinceras e sentidas desculpas, prometi que voltava 2 meses depois da ultima carta e não consegui cumprir... mais uns meses se passaram. Sei que deves estar preocupada, não dei noticias, aliás, não consegui ter coragem para as dar.

Sabes como a guerra pode mudar as pessoas, não só psicologicamente, mas fisicamente... pois bem, sofri um acidente, um dos tanques em que seguia foi atingido por uma bomba camuflada no chão. Sobrevivi, é um facto, camaradas meus não tiveram essa “sorte” se é assim que se pode chamar. Não te avisei, pois não tive coragem de te contar o estado em que fiquei, não tive coragem que me pudesses imaginar assim, não ia aguentar tamanha dor. Então, agora, 4 meses depois de uma intensa recuperação, ganhei coragem para te contar tudo... Fiquei algumas horas subterrado, quase morto, foram horas inacreditáveis em que consegui visualizar a minha e  tua vida, imaginando tudo o que iria perder, pensando em mim, em ti, em nós! Não conseguia sentir nada, as pernas e os braços já não me doíam, comecei a entrar num transe tal que quase visualizei a luz. Até que do nada, uns braços me puxam, me falam, quando acordei estava numa cama de hospital improvisado no meio do acampamento, juntamento com os restantes camaradas que não seguiram a luz. Perguntei-me onde estava, como tinha acontecido, onde estavas tu... até que o enfermeiro veio atenciosamente acalmar-me e esclarecer todas as duvidas. Pior foi, quando me quis sentar, simplesmente agarrei no lençol para o chegar para trás na mais simples das acções e qual não é o meu espanto quando me olho, uma e outra vez, e, já não sou o mesmo. Os primeiros pensamentos que me ocorreram foram que não te podia fazer isto, nunca ia poder passear de mão dada contigo nem com um filho, não podia jogar à bola, não podia fazer nada das actividades normais de pai para filho de esposo para esposa. A minha vida acabou ali juntamente com as pernas que ficaram subterradas naquelas escombros.
Agora vês que por mais que te quisesse despreocupar, não conseguia, não conseguia arranjar palavras para me desculpar, por ter quebrado todos os teus sonhos, por ter dado cabo de parte da tua vida, por te ter feito esperar todo este tempo por quem já não volta. E como isto não pode continuar, e tu mereces ser feliz, despeço-me aqui, pedindo que nunca me procures, que esqueças a minha existência e que me faças o favor de seres feliz! Eu continuarei a minha recuperação até ao limite possível, ficarei por cá a ajudar no que conseguir. Peço-te apenas para não te esqueceres, que um dia, alguém te amou mais do que a sua própria existência, mas esse alguém morreu.

Atenciosamente,

              “F”