Um dia fui uma
bela estudante, estudava, saía, tinha muitos amigos, divertia-me da melhor
maneira possível pensando que essa fase seria ,como todos me diziam, a melhor
da minha vida, como tal tenho perfeita noção que a aproveitei da melhor
maneira. Aos 21 anos tornei-me então licenciada em enfermagem. Por milagre ou
sorte consegui encontrar um primeiro emprego num lar da minha zona, fui
trabalhando sempre feliz porque era algo para que tinha estudado. Um dia,
surge-me uma proposta de um Hospital em Lisboa, para o serviço de medicina,
tudo pareceu ser um sonho bom demais para ser real, no entanto, mudar de
cidade, ao inicio causou-me um pouco de dificuldade, mas rápido me habituei,
pois o homem com quem viria a casar 4 anos depois já vivia lá e adaptação
acabou por se tornar menos dolorosa. Tudo foi correndo incrivelmente bem,
gostei tanto do serviço que decidi tirar especialidade em medico-cirúrgica para
ficar mais qualificada. Como nem só de coisas boas a vida é feita, perdi os
meus avós, acontecimento este que me custou muito pois sempre foram pessoas
muito presentes na minha vida e que eu sabia que me continuariam a fazer falta,
ainda mais no período em que foi, eu tinha 27 anos e estava grávida do meu
primeiro filho,no entanto tudo correu muito bem, ali eu tive a certeza que
agora sim chegava a grande e melhor etapa da minha vida, tanto que passado dois
anos estava grávida novamente. Acabamos por ficar pelos três, pois apesar de
termos uma vida estável, trabalhávamos muito e queríamos que estes três tivessem direito a tudo o que pudéssemos dar como pais.
Fui envelhecendo,
cheguei aos 40 anos, depois aos 50, os meus pais acabaram por falecer também e
como na vida estamos preparados para tudo menos para a morte foi mais um grande
momento muito doloroso, até porque eram o meu maior apoio e podia contar com eles
para tudo, inclusive os netos sentiram muito a partida deles pois passavam
grande parte das tardes depois da escola com eles até eu e o pai regressarmos
do trabalho.
O tempo continuou
a passar, já nao sou de maneira nenhuma a mesma menina dos 20 anos, apesar de
continuar com o mesmo sorriso, muita coisa mudou, a maneira de ver a vida, de a
viver, a paciência cresceu, enfim fui amadurecendo como todos nós, mas se fosse
só o psicológico que muda-se estávamos nós todos muito bem, já não corro, já
nem faço caminhadas grandes como antes, agora sinto alguma dificuldade em
caminhar, tenho rugas, nao vejo tão bem e com perfeita noção que não vai
melhorar, mas quero acabar a vida da melhor maneira, aceitando todas as
mudanças do tempo e garantindo que os meus filhos e agora os meus netos vivam
com o meu sorriso na memoria.
Vou muitas vezes
com o meu marido passear com os netinhos, já temos seis, vamos de autocarro até
às praias por exemplo, tento seguir o conselho que o meu próprio avô me dava “velhos
são os trapos e o que interessa é o espírito , portanto vou continuar assim.
Hoje tenho 85
anos, sou casada à 60 com o homem que desde a primeira vez que vi tinha a
certeza que seria ele o companheiro de uma vida. Sou muito feliz, sou mimada
ainda, elogiada, ainda conseguimos namorar e manter esta bonita e duradoura
relação. Morro com a certeza que fiz tudo o que mais queria e que quando
partir, parto com um sorriso nos lábios, sorriso esse que quero que todos
lembrem aquando pensarem em mim.
A
filha, neta, esposa, mãe e avó Filipa
